quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma coisa que detesto nos outros é o moralismo. Para mim é algo intolerável e falso. Tenho asco. Isso revela o motivo de ter escolhido viver em sentido anti-horário. Fui adepto de uma vida devassa. Anos a fio conheci os paraísos do hedonismo e desfrutei da intimidade de seus personagens: putas, travestis, bissexuais, gays, lésbicas... Todas as minorias, consideradas como escória pelos moralistas de plantão. Repudio esta opinião tão comum. Todos são pessoas e não podemos julgar os pretensos erros de outros, porque também são os nossos. Guardo todos esses seres dentro de mim, eu os embalei em meu colo, ouvi suas lamúrias em meio a garrafas esquecidas, dancei em noites alegres, sobretudo orei em seu colo e pedi proteção. Deles ouvi doces palavras, passeei de mãos dadas por entre o verde cimento e chorei. Intolerantes me classificaram de, “viado”, drogado, alcoólatra entre outros adjetivos, mas nunca chegaram perto de uma definição para mim . Fui rotulado e etiquetado, posto a venda como mercadoria corrompida e imprópria para menores. Era divertido estar no centro do palco. Embora soubesse, que tudo aquilo era desnecessário, porque dentro de mim vivia um cândido menino aprontador e inocente. Apenas estava escondido atrás de um secular baobá - plantado há séculos dentro de mim – mas eram incapazes de vê-lo.
Gosto da noite porque é quando o sol cai que podemos nos revelar tal qual somos. Ela foi minha companheira de todas as horas. Tanto as mais alegres, quanto as tristes e melancólicas. Eu tomei porres homéricos regados a uísque, absinto, rock e voltei a ser criança travessa. Em banheiros imundos fiz meu oratório. Coroei de vômito as latrinas limpas no luxo, fétidas na decadência. Andei pelo Sena em noites frias, com as pernas bambas sem saber se seria capaz de voltar para casa. Acho que fui levado por delicadas mãos. A manhã sempre me presenteava com uma dor de cabeça lancinante, nada que um mágico analgésico não pudesse por fim. Voltava contente e impune à mesma vida de desbunde. Foram dias de farra e delírio! Provei todas as oferendas da vida, posso dizer que vivi como um carnavalesco em dia de desfile na avenida. Esfuziante e ansioso. Quase sempre despudoradamente, beijando as fronteiras do desconhecido.
Minha experiência errante valeu a pena, fui desconstruído, virado pelo avesso e hoje sou um pouco mais contido. Mas minha cabeça passeia por lugares inesperados, desertos longínquos à procura de uma louca bailarina - que roda sem cessar até cair na fofa areia. Não sei onde isso tudo vai dar... Sinto medo. Minhas ilusões ficaram guardadas em um caixa ornada de filamentos dourados e cristais negros, num tempo longínquo e imemorial. Um menino bonzinho me levou para longe, caminhando despretensiosamente por dias a fio, num deserto infinito. Então perdi meus melhores dias dentro de uma cordilheira labiríntica. Voltei arrastando correntes, com pés desconexos, que já não me conduziam a nenhum ponto.

O erotismo era efervescente. Não recusava os prazeres oferecidos a mim. A timidez atrapalhava um pouco, mas bastava cair de boca no álcool e a transformação era nítida. Era um rapaz sedutor e surpreendentemente livre. Cedia aos apelos de quem requisitasse, independente de gênero. Nunca fui mesquinho, dividia meu afeto com quem estivesse a fim. Tinha o sonho de encontrar nos braços de alguém o idílio amoroso. Encontrei o afeto de cada dia em muitos braços, pernas e mãos vadias. Esquecidos a cada amanhecer. Os prazeres do sexo eram transitórios, tão efêmeros, que mal podia acreditar em sua existência. O desejo tinha que ser perenizado a cada dia, numa busca libertina de refinamento dos sentidos. Assim encontrei o esplendoroso encanto encarnado em um ser humano. Aos poucos o esplendoroso encanto foi se dissipando. Transformou-se em um alegre e vívido pesadelo. Enganei-me quase todos os dias, porque teimava em ser cego em meio ao tiroteio que me dilacerava. Nesse jogo descobri que havia perdido meu cetro e reinado. Comecei a gostar de sofrer. Era uma autopunição, sendo eu ao mesmo tempo advogado e juiz de mim mesmo. Meu prazer era estranho, às vezes, patético. Saí profundamente ferido e estilhaçado. Sinto que ainda o procuro em outros braços. Não sei amar, minha entrega é plena. Meu sentimento é delicado como uma borboleta azul e suave feito uma pétala de rosa.
Nas horas melancólicas ouvia jazz, blues e bossa nova e chorava copiosamente. Conheci pessoas absolutamente especiais, doces e despidas de razão cartesiana. Donas de inteligência heterodoxa e autêntica. Afinei-me imediatamente. Fiz amigos e vivi protegido por esse doce elo. Senti-me amado e acolhido. Conheci a afeição, o desejo e o erotismo nestas relações.
Descobri que o mundo é um caos, com incoerências e muito loucura, lendo a poesia de Rimbaud. Nem sempre minha mente suportou os limites deste caos rodopiante. Abrigava-me na filosofia, na literatura e nos braços de meus amigos. Data desta época um de meus primeiros amores: o teatro. Larguei tudo aos 15 anos e parti numa ribalta vagabunda, rumo a aventuras desconhecidas. Com o desejo apenas de divertir os outros e a mim próprio. Com bagagem parca – literatura, filosofia, algumas tintas e roupas para esconder minha nudez. Foi a essência da liberdade. Uma experiência única e fascinante. Eternizada. Arribávamos em pequenos vilarejos poeirentos do sertão encenando textos que contavam histórias universais. A platéia se amontoava à frente da humilde ribalta. Dávamos uma porção de sonho aquela gente com tão pouca chance de devanear, vivendo a crueza de uma vida desesperançada. Éramos muito bem tratados por todos. Trocamos experiências com pessoas iluminadas e voltamos repletos de alegria em nossas bagagens. Foram dias incertos, cheios de lirismo, doçura e a certeza de que é possível a transformação por meio da arte. A arte é uma forma de redenção!
Nesses tempos pude transportar para as telas todos os meus anseios. Pintei em abundância e me senti redimido. “Acho fui curado de minhas dores e desencantos”, pensava. Pude desfrutar de minha própria solidão e me sentir totalmente livre e anônimo. À noite a trupe dançava ao redor da fogueira e jogávamos conversa fora. A companhia de meus amigos era absoluta e não sentia falta do conforto de casa. Mesmo despido de quase tudo – só tínhamos mesmo o básico – meus sentimentos eram de uma alegria transbordante, se comparada aos dias posteriores. Não me recordo de ter sentido algo tão sublime e verdadeiro, como naqueles dias.


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